Fotografia e Literatura (parte 7): Desvios: constelações em movimento

Uma eterna contingência da tarefa de fazer listas é o fato de que, por mais objetivos que sejam os critérios estabelecidos, eles sempre serão, no fundo, arbitrários. O fazedor de listas será sempre um astrônomo grego ou chinês traçando constelações no escuro do céu, e identificar-se com os desenhos (ou com as listas) será sempre uma tarefa exclusiva do espectador ou do leitor. Da mesma forma, se nem as constelações esgotam a infinidade de estrelas que boiam no firmamento, tampouco uma lista como esta terá como dar conta de todas as possíveis relações, de todos os possíveis contatos entre fotografia e literatura, seja porque se trata de universos móveis, em constante expansão, seja porque a qualquer momento um outro astrônomo poderá propor novos desenhos. 

Nesse movimento constante, cada obra da qual nos propusermos a falar também fará das suas peraltices, buscando escapar aos nossos vacilantes intentos de contê-la dentro de um desenho arbitrário. Fotografia e literatura são ambas constituídas por imagens; estas, por sua vez, se assemelham aos fantasmas, como bem descreveu o filósofo francês Georges Didi-Huberman (2013, p. 35). Para o crítico literário argentino Daniel Link, os fantasmas são “a pura potência do ser (ou do não ser), nunca um limite, sempre um umbral” (LINK, 2009, p. 13, tradução minha). O umbral é esse lugar indefinido, esse eterno “entre”, nem totalmente lá, nem totalmente cá. Ao mesmo tempo, qualquer conjunto ou constelação só pode ser desenhado em relação àquilo que fica de fora (desenhar é traçar uma espécie de limite). O fora é o que dá movimento ao dentro, a energia que expande o universo, e é por isso que a última constelação desta série é, na verdade, uma não-constelação, um conjunto de desvios reunidos por exclusão.

  

Páginas de O mez da grippe, de Valêncio Xavier, lançado originalmente em 1981, na edição
publicada pela Companhia das Letras em 1998, com o título 
O mez da grippe e outros livros.

   

Tomemos um livro como O mez da gripe (1998 [1981]), de Valêncio Xavier, autor nascido em São Paulo em 1933, mas que construiu carreira em Curitiba, tendo se dedicado à escrita e ao cinema. Nesse livro polifônico, tal qual um filme, tudo é recortado e remixado, ainda que haja na superfície uma cronologia bastante evidente, que reconstrói com materiais diversos o surgimento e a evolução da epidemia de gripe espanhola na capital paranaense a partir de 1918. Nas duas páginas exibidas acima, vemos alguns dos principais elementos que compõem as várias camadas da narrativa: 1. a data (“dia 25 sexta”), que dá ordem aos fragmentos; 2. recortes de jornais, que trazem tanto atualizações locais sobre o estado da epidemia quanto notícias internacionais sobre a Primeira Guerra Mundial, então em seus últimos suspiros; 3. uma descrição, na forma de um poema erótico e até mesmo perturbador, de um episódio de violência sexual (“Mãos grandes como de cavalo”); 4. notas oficiais acerca das ações de combate à epidemia; 5. anúncios publicitários que remetem à higiene e ao isolamento (“Creolina”); 6. fotografias (nesse caso, um postal); e 7. o relato de uma sobrevivente, Dona Lúcia, registrado anos depois, em 1976. Por meio desses recortes fragmentados da realidade e da ficção, Xavier vai tecendo uma narrativa em mashup surpreendentemente coesa e que não se furta a destilar acidez sobre a omissão e o negacionismo das autoridades diante da epidemia (é 1918, mas poderia ser o Brasil de 2020). 

  

Páginas de O mez da grippe, de Valêncio Xavier, lançado originalmente em 1981, na edição
 publicada pela Companhia das Letras em 1998, com o título
O mez da grippe e outros livros.

   

Não é difícil perceber de que modo um livro como esse desafia a tarefa do classificador. Em entrevista à Folha de S. Paulo em 1996, o poeta e crítico Décio Pignatari descreveu-o como “o primeiro romance icônico brasileiro”. A reedição feita pela Companhia das Letras em 1998 reúne, além de O mez da grippe, outros quatro trabalhos de Valêncio Xavier, todos contendo experimentações com textos e imagens vindos de diversas fontes. Em 2020, o livro foi reeditado pela Arte e Letra.

   

Histórias do não ver (2013), de Cao Guimarães.

   

Outro exemplo, completamente diverso (como haveria de ser), mas também de difícil classificação é Histórias do não ver (2013), do artista visual e cineasta mineiro Cao Guimarães. A obra é resultado de uma experiência que se aproxima da performance, na qual o artista pede para ser vendado por algum amigo ou amiga e depois levado, em uma simulação de sequestro, a diferentes lugares, munido apenas de uma câmera fotográfica. No livro, Guimarães apresenta uma seleção de suas imagens “cegas” junto de breves relatos sensoriais escritos depois de cada uma daquelas experiências. 

   

Páginas de O livro dos monólogos: recuperação para ouvir objetos (2018), de Diógenes Moura. 

  

Por fim, um último exemplo entre as obras desviantes, em parte também derivado de uma experiência performática, é O livro dos monólogos: recuperação para ouvir objetos (2018), do escritor e curador Diógenes Moura, obra que se situa em uma zona porosa onde se encontram a literatura, a fotografia, a ficção e a autobiografia (falo mais sobre o livro em um vídeo produzido a convite do Instituto Moreira Salles). Catalogado como “ensaio”, a obra incorpora o caráter vacilante de uma voz narrativa que, literalmente, ensaia, sem nunca alcançar uma forma definitiva (um pouco como no filme Moscou, de Eduardo Coutinho, em que uma peça de Tchekhov é ensaiada sabendo-se desde o início que não será nunca apresentada). No ensaio como forma, diz o filósofo alemão Theodor Adorno (2003, p. 34), “o que se anuncia de modo inconsciente e distante da teoria é a necessidade de anular, mesmo no procedimento concreto do espírito, as pretensões de completude e continuidade”. O assunto do ensaio, diz ainda Adorno, “é sempre um conflito em suspenso”. E é possivelmente desse conflito em suspenso que fala O livro dos monólogos. Trata-se de um ensaio literário habitado pela fotografia do início ao fim, que busca explorar essa zona indeterminada em que a imagem permeia a palavra e vice-versa.

A característica mais marcante do livro de Diógenes Moura é, a meu ver, o fato de a fotografia ser apresentada na sua face de objeto, sendo exibida, na maioria das vezes, na forma de ampliações emolduradas sobre as paredes da casa do autor (concretamente, um ensaio produzido, a pedido de Moura, pelo fotógrafo Alê Ruaro). Trata-se de uma fotografia fotografada, portanto, que surge mesclada ao cotidiano entre objetos pessoais, amuletos e ícones regionais. Nesse ensaio, os fantasmas (as imagens) parecem estar encarnados, enfim, nos objetos. O subtítulo, “recuperação para ouvir objetos”, que por sua vez recupera um verso do poeta Jorge de Lima, parece querer delimitar uma espécie de terceira margem do ensaio, trazendo a ideia de que o que fazemos ao ler/ver o livro é também ouvir aqueles objetos fantasmagóricos que, juntos, ajudam a compor um universo particular. 

Como afirma Diógenes Moura no próprio livro (2018, p. 23), seu ensaio consiste, no fundo, em “uma tentativa de irmanar literatura, imagem, fotografia e existência”, tentativa que me parece também sintetizar a tarefa que este fazedor de listas se impôs até aqui, e cujo círculo agora reencontra o seu ponto de partida – como em uma espiral vertiginosa, sem se fechar, sem ponto de chegada. Se o ensaio é a fronteira, o umbral de uma prática (escrita e/ou “imaginada”), ensaio também é a palavra que, na fotografia, consolidou-se como definição corriqueira para um conjunto delimitado e coeso de imagens, talvez porque se compreenda desde o início que, por mais que tentemos lhe impor restrições, limites, categorias, um ensaio será sempre uma “obra aberta”, conceito descrito pelo mesmo Umberto Eco, que abre e agora encerra esta série de artigos como “um infinito colhido numa definitude” (1991, p. 64). No coração dessa finitude primordial, um ensaio (e uma lista) estaria sempre à espera — de ser completado, desafiado, reordenado, enfim, realizado. 

   

Paulo Fehlauer
Fotógrafo e escritor, doutorando em Teoria e História Literária na Unicamp

  

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REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.
DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013. 
ECO, Umberto. Obra aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. Trad.  Giovanni Cutolo. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 1991. 284 p.
LINK, Daniel. Fantasmas. Imaginación y sociedad. Buenos Aires: Eterna Cadencia, 2009. 448 p.
MOURA, Diógenes. O livro dos monólogos: recuperação para ouvir objetos. São Paulo: Vento Leste, 2018.

  

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SUGESTÕES 

A lista abaixo reúne publicações que, em uma primeira leitura, possuem elementos que as aproximam desta constelação denominada Desvios. Inclui títulos catalogados na Base de Dados de Livros de Fotografia e outras obras não catalogadas, que compõem o acervo particular deste autor. Esse índice é apenas uma sugestão, nunca uma categorização.

A Margem – Garapa Amor e felicidade no casamento – Jonathas de Andrade e Yana Parente Antologia mamaluca e poesia inédita – Sebastião Nunes Desterro : expedição etnográfica de ficção – Ícaro Lira Espelho – Helena Rios Farsa Truque Ilusões – Joaquim Paiva Histórias do não ver – Cao Guimarães Lobo do homem – Antonio Sobral Mapa do maravilhoso do Rio de Janeiro – Beatriz Jaguaribe Minha mãe morrendo e o menino mentido – Valêncio Xavier Mitopoemas Yãnomam – Emilie Chamie e Claudia Andujar Nove meses – Gustavo Piqueira O livro dos monólogos (recuperação para ouvir objetos) – Diógenes Moura O mez da grippe – Valêncio Xavier Quase/acervo – Ivan Grilo Quem sabia já morreu – Ciça Carboni Querido diário, arremesse-me fora daqui – Pedro Jamal Campanha Reserva : o abismo não nos separa, ele nos cerca – Laura Gorski e Renata Cruz Ressaca tropical – Jonathas de Andrade Sobremarinhos – Gilvan Barreto Sou aquela mulher do canto esquerdo do quadro – Fernanda Grigolin
Três momentos de um rio – Bárbara Lissa e Maria Vaz Tudo está tão bom, tão gostoso... : postais a Mario de Andrade – Marcos Antonio de Moraes (org.) Uoni-Uoni : conta a sua história – Mario Baldi Vc sabe onde fica Brasília? – Rony Maltz e Dafne Capella Viajo porque preciso, volto porque te amo – Marcelo Gomes e Karim Aïnouz Vinte e nove ruas – Sofia Brito Virginia Trellick Burgess – Carla Linhares Zoológico – Fernando Peres e Silvan Kälin

  

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OUTROS CAPÍTULOS DESTA SÉRIE
Fotografia e Literatura (parte 1): listas insuficientes para universos porosos
Fotografia e Literatura (parte 2): Releituras: tempos dilatados
Fotografia e Literatura (parte 3): Diálogos: entre delírios, haicais e perfurações
Fotografia e Literatura (parte 4): Impregnações: espelhos ambíguos 
Fotografia e Literatura (parte 5): Convívios: “eu é um outro” 
Fotografia e Literatura (parte 6): Alusões: duas ou três faces 
Fotografia e Literatura (parte 7): Desvios: constelações em movimento 

  

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