NOVO CONCRETO: DUALIDADES E FICÇÃO DO VIR-A-SER

Georgia Quintas
29 abr 2020

RESUMO: Neste texto crítico, a antropóloga Georgia Quintas analisa o livro Brasilia, com fotografias de Marcel Gautherot, publicado em 1966. Brasília, inaugurada e estabelecida em recente fundação como capital federal, mostra-se nessa edição em perfeita sintonia plástica com a arquitetura moderna e a ideia de desenvolvimento e prosperidade. No texto, as perspectivas sociais e culturais são vetores de acréscimo ao debate sobre os meandros que se dilatam na imagem sedutora e bela.


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Difícil definir a extensão da gramática visual registrada sobre a capital federal Brasília. As imagens fotográficas (acervo vivo e profuso de tal projeto grandioso em construir a futura capital do país em um lugar absoluto de terra e poeira, território de poder e imaginário), mostram-se subjetivamente complexas em seu embrulho de modernismo, progresso, vetor de autoestima patriota. Esse lugar conjurado ao esforço profundo de braços, suor e vidas de muitos homens e mulheres a pôr em concreto o projeto do então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek (1902-1976) – em brevíssimos quatro anos (1956-1960) –, desloca-se para a superfície da imagem por meio de fissuras da realidade e auto-ficção sutis. Poderíamos nomear essa condição de ilusão concreta do vir-a-ser moderno numa região árida, plena de terra, mas faltosa de tudo.

A cidade pensada, desenhada e efetivamente erguida para além dos limites do belo, da perfeição, de idealização do moderno ao cotidiano comum se confunde pela plasticidade na fantasia social do lugar concretizado pela força do homem (arquitetos, projetistas, engenheiros, candangos, etc.) e entranhado no pensamento do desenvolvimento, do futuro. Ambientes e paisagens quase sardônicas pelo frescor do novo, da cidade cartesiana de beleza e funcionalidade.

No livro Brasilia (Munique: Wilhelm Andermann Verlag, 1966)* , as fotografias de Marcel Gautherot (1910-1996) demarcam um roteiro visual das principais edificações daquela nova cidade-capital, numa concisa edição de imagens sugerida de antemão pelo termo "30 fotografias coloridas" impresso na capa. Em breve apresentação, localizada na contracapa, podemos ler (em tradução livre) que “Brasília é uma capital criada do zero com energia e fé no futuro. Essas qualidades poderiam, em alguns anos, dar vida ao deserto e iniciar o desenvolvimento do interior de uma nação cuja área cobre três quintos da América do Sul.” As imagens de Gautherot em sua beleza plástica, precisa composição, horizontes firmes, arquitetura particular de Oscar Niemeyer (1907-2012), refletem diretamente o contexto escrito acima na publicação.


As 30 imagens convertem a realidade do dito deserto em realidade deslumbrante através de cores vibrantes que sublinham o projeto de modernização da vida social de Brasília. Postais do desejo espacial de ser algo projetado para mudar em parte a alteridade dos brasileiros sobre si. Aqui pensemos na curva antropológica a qual se faz sobre o fosso entre o real e a camada latente da fantasia da realidade: colocar-se em compreensão sobre a modernidade projetada para a vida dos brasileiros (que ocuparam ou viveram de longe tal projeção). Nesse caso, a dualidade entre o cotidiano e a nova conjuntura social, a qual se colocava pela inauguração de Brasília, exercitava o sonho da aventura do eldorado perfeito denotado nas fotografias do livro. Ou seja, espaços públicos envolventes para o lazer, o bem viver, acesso livre a uma cidade projetada para ser comunitária. O texto e as descrições de fotografias escritos por John e France Knox trazem para o livro Brasilia a narrativa mista entre informações e relato, o que torna um deleite observar os símbolos culturais entre imagens e textos, entre urbanismo e arquitetura. Determinado excerto dos autores, o olhar crítico discorre com clareza: “Algumas pessoas acham difícil se adaptar às realidades da vida em Brasília. São eles que amam a vida familiar e não querem fugir dela; quem também gosta do movimento das grandes cidades cosmopolitas para passear por lá, faz compras nas lojas, assiste ao último filme, a última peça que todos devem ter visto para discuti-lo no restaurante ou no bar mais popular. Finalmente, são todos os seres que se consideram muito ousados ​​e são, na realidade, apenas receptores sem nenhum desejo real de aventura ou imaginação.” (tradução livre)

O frescor de Brasília (recém fundada) no que do novo exala; a amplitude do horizonte marcado ainda ora por vegetação nativa ora por paisagismo exato em certas fotografias; assim como, algumas poucas imagens que apresentam parques e ruas possibilitam a reflexão sobre como podemos ver entre as pregas do tempo e do concreto o que se projetou na modernidade. Trata-se de grande exercício delinear caminhos mais orgânicos a partir da imagem, cuja sua origem documenta um território. O espírito da ideologia que perpassa a arquitetura de Oscar Niemeyer e o ímpeto político de Juscelino Kubitschek formam trama densa nas fotografias de Marcel Gautherot. O filósofo Marshall Berman (1940-2013) explica que ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. Brasilia, enquanto livro conciso com habilidades conceitual e editorial para promover o Brasil, apresenta-se no agora por meio de possíveis reflexões. Busco novamente Berman para vislumbrar talvez um caminho, quando assim descreve sobre os processos sociais do século XX como em “perpétuo estado de vir-a-ser” no que de melhor se espera da modernização. Brasilia pode ser esse sopro ambíguo do que dela restou-nos.

Georgia Quintas
Escritora, antropóloga e co-fundadora da editora Olhavê.

NOTA
* Além desta versão em alemão, também foram publicadas versões em inglês, francês e espanhol, todas elas lançadas em 1966 pela editora alemã Wilhelm Andermann Verlag, como parte da coleção Panorama de catálogos turísticos.
Gautherot também fotografou, para esta mesma coleção, os títulos Rio de Janeiro (1965) e São Paulo (1968). Também ilustrou publicações turísticas similares lançadas por outras editoras, tais como Pernambuco: Recife-Olinda e Aratu (ambas lançadas pela Hamburger Verlagsbuchhandlung em 1970), além de Belo Horizonte (Livraria Kosmos Editora, 1970). Já os títulos Bahia de Todos os Santos (1968) e Belo Horizonte (1969), também pertencentes à coleção Panorama, foram fotografados por C. Jabôr.

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Este projeto foi realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.
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