ANCESTRALIDADE LAPIDAR PARA O BRASIL

Georgia Quintas
11 jun 2020

Ao perceber um livro em sua concepção física, matérica, com ânimo próprio ao objeto em si, manuseado de acordo com o grau de interesse do leitor, ele pode transcender o concreto e mover-se para as particularidades da sua própria história de pesquisa e dedicação. O registro visual é determinado pela potência de quem enraizou o ímpeto do encontro e da alteridade essencial (através do respeito e consciência da identidade plena do outro ser humano). Ou seja, nada é simples. Tampouco fácil viabilizar em um trabalho de fotografia, o qual gere a importância do que é possível congregar à imagem enquanto arquivo e repertório de compreensão sobre grupos sociais, etnias e populações.

Alguns fotógrafos, embora não tenham formação na área antropológica, ativam com grande habilidade a investigação visual em determinado contexto e grupo social de realidade cultural distinto ao seu. O livro Zo’é (Ed. Terceiro Nome, 2013), do fotógrafo Rogério Assis deixa essas marcas de forma contundente e profissional. Faz estabelecer, na dicotomia entre o registro e o documento, superfície bem arada para o objeto livro em sua propriedade cara ao conhecimento. É plausível observarmos já no relato de Rogério Assis, assim como nos textos dos antropólogos Márcio Meira e, em especial no de Dominique Tilkin Gallois (antropóloga de referência nos estudos sobre usos e costumes de várias etnias da região amazônica, inclusive sobre os Zo’é, a qual apresenta nesse livro texto etnográfico precioso), para compreender a beleza e oportunidade de conhecermos o povo indígena Zo’é em imagens fotográficas. É no encontro com a imagem que o pensamento cria laços amplos para futuras pesquisas e mobilizações.