ENTREVISTA: FELIPE RUSSO

Alexandre Belém
4 jun 2020

Nesta conversa com o fotógrafo Felipe Russo, falamos sobre o seu novo livro Garagem Automática (Bandini Books, 2019) e, principalmente, me interessei em entender o seu processo e pensamento sobre o fazer de publicar.

Aqui, vou me apropriar do que escrevi sobre Felipe há exatos seis anos: numa época em que a Fotografia (como ação, comunidade, modo de vida, prazer, etc.) anda de mãos dadas com egos extremos e conchavos, ter um fotógrafo sério e concentrado em seu ofício só poderia promover projetos com coerência.

Para ilustrar esta entrevista, Felipe nos enviou um conjunto de fotografias extras que não entraram na edição final do livro Garagem Automática.


Alexandre Belém
Jornalista, editor e co-fundador da editora Olhavê.




Garagem Automática. Paris, França: Bandini Books, 2019


[ALEXANDRE BELÉM] Felipe, comecemos pelo final: como surge o seu mais novo livro, Garagem automática?

[FELIPE RUSSO] Garagem Automática surge primeiro como uma exposição na Casa da Imagem – Museu da Cidade de São Paulo, em 2016. Terminado esse processo, passei a trabalhar com as fotografias na tentativa de construir uma sequência de imagens para o livro. Acredito que essa é a espinha dorsal de um livro de fotografias: é a partir da sequência que o livro se constrói como objeto. Trabalhei por algum tempo usando as mesmas imagens que estavam na exposição, até que entendi que ali não tinha um livro. Voltei aos negativos e olhei tudo que tinha produzido, separei algumas imagens e comecei a re-trabalhar a sequência.

Quanto mais convivia com as imagens mais percebia que o livro precisava dar conta de uma experiência mais sensível do interior desses prédios. Esse é um ponto que me interessa muito: encontrar, nas próprias imagens, a voz do trabalho e construir um livro que respeite essa voz. O livro propõe um percurso mediado pelo ritmo mecânico, as texturas, superfícies, a luz e a cor desses interiores. A sequência é quebrada em fragmentos subdivididos por páginas impressas em preto, oscilando entre momentos mais claros e descritivos, e outros mais escuros e abstratos.

Fiz muitos bonecos do livro e tinha uma certa clareza da estrutura que queria para o trabalho, mas foi fundamental colaborar com Nicolas Silberfaden, editor da Bandini Books e Julien Imbert, o designer do livro. Trabalhamos juntos por alguns meses e publicamos Garagem Automática no segundo semestre de 2019. Nicolas e eu fizemos o mestrado juntos e sempre mantivemos uma relação de amizade e de diálogo sobre nossa produção, e hoje dividimos o mesmo espaço de trabalho. Quando ele começou a Bandini disse que gostaria de publicar meu livro, e mais uma vez foi um trabalho em que me envolvi em todas as etapas. Fiquei muito satisfeito com o resultado que alcançamos e aliviado por finalmente colocar esse o livro no mundo.
  



Você publica Garagem após cinco anos do livro Centro. Por que esse intervalo? Contingências ou tempo de maturação?

Difícil dizer com clareza a razão desse intervalo, acho que é uma combinação de coisas. Maturação com certeza tem um peso importante, levei bastante tempo para entender como repensar o trabalho depois da exposição na Casa da Imagem. Demorei para entender como poderia editar o livro e precisei de tempo para viabilizar a sua publicação. Além disso, foi difícil me manter emocionalmente e intelectualmente conectado ao trabalho – de certa forma a exposição criou uma sensação de fechamento e minha cabeça já estava em outro lugar.

Eu sempre estou fotografando e trabalhando em mais de um projeto por vez. Tem um momento da produção, que me dá muito prazer, que é o inicio da formação de um discurso ou entendimento de um processo. Fotografo de forma muito livre e vou juntando as imagens tentando entender caminhos possíveis, e quando um novo caminho começa a se desenhar é um momento de muita entrega. Gosto demais desse espaço de pouco entendimento e de busca, é um momento de revelação e aprendizado. Confesso que nesse momento tenho a tendência a me afastar de trabalhos já concluídos ou que estão mais finalizados. Acho que isso é um dos desafios da produção de projetos longos, muitas vezes a cabeça e o corpo já não estão no mesmo lugar.

Além disso, muitas vezes percebo que o degrau final da edição de um livro acontece quase que “sozinho”. Você fica meses quebrando a cabeça até que larga o trabalho de lado, aí você volta e resolve a edição em uma tarde. Penso que esse distanciamento é fundamental e que o trabalho fica ali sendo ruminado em algum canto mais inconsciente do nosso corpo. No caso do livro Garagem Automática, Nicolas e Julien da Bandini Books foram fundamentais para me ajudar a voltar ao trabalho.

Uma outra questão é minha atuação como professor e o envolvimento em projetos de outros artistas. Nesse período tive momentos em que me dediquei intensamente ao trabalho de outras pessoas e me desliguei do meu. Com o tempo tenho entendido e respeitado esses movimentos.